A dor de uma vida passada e a culpa do viver, como se tudo que existisse e acontecesse é culpa daquela jovem adolescente… A mente pensando sempre pensando, quando as vozes ao fundo perturbadoras continuam a gritar estridente por um pedido incompreensível ao ouvidos dessa garota. Por que viver nessa monotonia? Se podes mudar esse jeito mimado de ser? Pequena menina, amadureça, é o que um certo mago lhe diz… Por que não o escuta…?
Em sussurros baixos ela responde, fala com a solidão, hipnotizada pela luz reconfortante; não ouves os conselhos, por que não é o que queres e sim um abraço reconfortante de alguém que lhe saiba valorizar. Não quer mais palavras na mente, mais opiniões diferentes nem mais ninguém sabendo dessa dor que corta o coração pequeno. Batidas rápidas, a respiração se tornando ofegante, respire, respire… Ela não sabe aproveitar as coisas boas que são impostas na vida, não sabe o que é felicidade e um conforto de calor de outro alguém que espera.
A chuva caia, molhava as árvores, pingando nas folhas verdes, cheirando a solidão. Pingos frios, vento gélido de um mundo que muda a cada dia, quando não há sol, a lua não está a brilhar. O céu negro e aquelas densas gotas tocavam a janela num ruído de batidas insistentes, a esperança querendo entrar, e o medo se confortando mais nos braços dela. Tudo era silencioso, só o barulho da chuva lá fora, algumas luzes a brilhar e um coração quente dentro da casa.
Aperta os olhos com força, segurando a dor, reprimindo o medo, ninguém além dela precisava saber o que sentia, o que as outras almas humanas distantes poderiam fazer por essa garota? Palavras? Não quer mais palavras, a chuva aos poucos se acalmava, pingos, pingos, lágrimas, pingos, pingos. Doía… doía muito… Aquela culpa, do que fora capaz, até que ponto chegou, tudo que fez, todas as causas e situações, culpa dela! O semblante molhava-se, cada vez mais, orbes verdes a cintilar. Rubra, aquele sentimento que cortava, o punhal ainda no peito jovem, aquele sangue vergonhoso que pingava ao relento de um sonho real; não queria pensar, não queria mais aquelas palavras… Não agora.
O corpo estremecia, tremia, não pelo frio que passava pelas frestas da janela, não por aquela brisa que envolvia o corpo encolhido, a pele branca e rosto corado; aquele tremor, pelo medo que consumia cada dia mais, vivera uma vida temendo a tudo, todos os sentimentos, ela tem medo… Os lábios abriam-se, num grito silencioso; nada além de ar… “Aquilo” continuava a corroer-lhe, e as gotículas transparentes que pingavam á roupa quente, de nada aliviavam.
A boca formigando juntamente com a pele que tremia, aquilo que sentia, sinal que teria ainda um coração a bater dentro de si, ao saber que um anjo sente junto com ela, reconforta-se por instantes; não gostava da ironia, odiava o sarcasmo. “As lágrimas são doces” talvez por que nelas contenham a esperança que paira na mente, aquelas que não acredita-se que ainda exista, depois resta um gosto amargo, aquele gosto do sentimento que ainda continua vivo dentro dela. Não queria mais isso, numa negatividade da cabeça, balançando, mas não adiantara, o que está no coração, não se pode tirar com a consciência.
Gotas na janela, o silencio do abafado suspiro; a essência de seu viver… Para quem viver… Por que viver… Objetivos, pensamentos, tudo estava perdido? Talvez confuso, ou indefinido… Mas saber ela até onde quer chegar? Olhos tristes numa madrugada solitária, querendo estar acompanhada de alguém; alguns confortos insuficientes ao machucado aberto. Deitar e fechar os olhos, num longo suspiro único, frio e solidão com ela, não estava sozinha, tinha esses sentimentos a acompanhando. Menos confusa, menos criança, menos mimada… Menos… Lágrimas.




